segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

CRÔNICA MORFEUS: CRIMES

Acordei às cinco da manhã em meio ao silêncio sepulcral da madrugada para escrever esse texto. Em minha companhia, um copo de vinho e as lindas luzes de Brasília cintilando em meio aos novos arranha-céus do Guará II. Poderia dizer que fiz isso só para não esquecer dos detalhes dos sonhos, mas só comprometeria o restante do meu tempo de sono se muita gente estivesse lendo esses textos ou se houvesse muito dinheiro na jogada. A verdade é que fui acometido por uma bela VRC oriunda de pizza e refrigerante consumidos na noite anterior e pela oportunidade de reflexão que os novos sonhos me deram.

Foram quatro sonhos, porém só lembro claramente de três.

Na primeira viagem da noite, eu estava no pátio do prédio onde moro. Devia ser mais de meia noite e eu tentava achar algum canto para poder me sentar e fazer algo que eu sentia que era proibido, ou imoral. Quem sabe até ambos. Poderia ser até mesmo alguma gordice. O fato é que eu me encostava de costas nos pilotis e observava as disposições das câmeras de segurança, procurando um ponto cego. Quando consegui achá-lo, notei que era um canto extremamente escuro na parte de trás do edifício. Ao observar melhor essa parte do condomínio, fui tomado da certeza de que nesse local havia algum criminoso, um assassino, apenas esperando para que eu entrasse para cometer sua atrocidade. Daí entrou um pouco do que um personagem de Edgar Alan Poe tomado por um sentimento que o escritor definiu no conto “O Demônio da Perversidade”. Esse sentimento, de mesmo nome da estória, é o de flertar com o perigo mortal, como ficar a beira de um penhasco namorando o risco de morte a ponto de sucumbir à vontade de pular de lá, mesmo sabendo do resultado dessa decisão. Foi quando o sonho terminou e deu lugar a outro, que não lembro qual era. Depois desse episódio, caí em outra camada de loucura.

Desta vez estava em algum lugar interiorano ou fora do meu habitat urbano. O lugar me lembrava muito Pirenópolis ou Ouro Preto. O mais interessante é que nunca estive em nenhum desses destinos, conheço apenas de fotos e reportagens. Não sei o que fui fazer lá, o fato é que meu molar inferior esquerdo estava em frangalhos. Passava a língua neles e o que restava dele eram pedaços muito delicados e finos, que pareciam poder se quebrar ao menor esforço o qual fossem submetidos. A textura lembrava pequenas lâminas utilizadas para visualizar coisas no microscópio. Procurava, agoniado, um dentista para resolver o problema e logo fui parar em uma lojinha de arquitetura típica da região, incrustada em uma das várias construções com eiras ornamentadas e coloridas. Passei pela cortina fina e florida que delimitava a porta de entrada e sentei num sofá, de onde fiquei observando a tarde cair enquanto esperava minha vez de ser atendido. Fim de mais um sonho relativamente tranquilo e começo do capítulo mais doido dos sonhos, em todos os sentidos.

O ambiente era muito parecido com o da idade média na Europa, porém nos dias atuais. Era uma estrada de cascalho bem claro, com um pouco de grama e mato ralo ao redor, provavelmente caminho para uma pedreira. Em um carro, um Gol "caixote" azul escuro e com rodas nuas negras, haviam dois jovens e um terceiro homem, loiro, que era o ator Jay Mohr, que interpretou o jornalista do filme “A Corrente do Bem”. O grupo formava um bando de criminosos que abordava um outro ator loiro, provavelmente um global do qual não lembro o nome. A ação acontecia num conjunto de caminhos e ladeiras formados no terreno pedregoso de uma pedreira e eu assistia a tudo como se fosse uma testemunha.

Jay Mohr ironizava a vítima e dava indiretas apontando para seus bens, conseguindo que o outro ator colocasse preços para “disfarçar” o roubo e a vítima entregava seus pertences, até que perguntou pela bicicleta que o assaltado montava. “Sabe, eu preciso ir para casa, mas estou sem condução”, disse Mohr com um sorriso sarcástico e uma arma na mão enquanto olhava para a bicicleta. “Gostaria de poder ajudar, mas preciso ir” e o ator global virou as costas e saiu pedalando apressado, mas sem medo. Foi quando o bando do hollywoodiano olhou para mim. Me senti ameaçado e quando percebi, do nada o meu amigo Caco Gonçalves, apareceu correndo na minha direção de forma realmente hostil. Algo muito ruim estava para acontecer quando, de repente, me aparece dirigindo um Gol BX uma ex-colega de trabalho, Lauriene Alvim e uma outra ex-colega, Juliana Costa, ao seu lado no carona. Elas me olharam como se dissessem “corre que a gente te dá apoio!” e corri atrás do carro, que levantava poeira e aos poucos se distanciava de mim até que pararam, talvez por perceberem que eu não conseguia me mover com a agilidade que eu queria. Quando olhei para trás, Caco havia se transformado em um outro amigo, Daniel Fernandes Coelho. Resolvi encarar de vez o problema e fui para a luta.

Eu e Daniel dávamos grandes saltos na tentativa de atingir um ao outro e também de escapar dos golpes, até que consegui pegá-lo no contra-pé do pulo e com uma tesoura dessas de manicure, que arranjei não sei de onde, ameacei furar a barrida dele. Sei que o que vou dizer é tosco, mas em sonhos nada é impossível (não fique bravo comigo Daniel, é apenas uma loucura do meu subconsciente, ok? Risos). Não sei porque cargas d’água, ele estava grávido! Eu não quis machucar a criança e interrompi a ação do golpe. A tentativa foi suficiente para acabar com a luta. Foi quando acordei de vez.

Tudo que aconteceu tem uma explicação, mas obviamente não sei justificar tudo.

Acredito que o primeiro sonho tenha a ver com parte da minha identificação. Tenho procurado uma forma de me identificar dentro das tribos. Não é algo novo para mim, que nunca tive identificação definitiva com nenhuma trupe. Já fui "axezeiro", "rockeiro", rapper, pop e hoje sei lá que diabos sou. O fato é que sou uma mistura de tudo aquilo que sobrou do que julgo ser bom para mim. Certamente, sou feliz assim, mas a falta de definição e às vezes a definição errada por parte de alguns me deixam um pouco incomodado.

O segundo sonho acredito ser fácil de explicar. Antes de tirar minhas últimas férias, havia feito um senhor planejamento para a viagem que faria após ficar “retido” 15 anos em Brasília. Sim, durante 15 anos não fui nem à Caldas Novas/GO. Passei seis meses organizando e preparando cada passo da viagem para fazer um mês de intercâmbio em Toronto/CAN. Faltando uma semana para o embarque, um pré-molar inferior direito que estava com infiltração me tirou o sono. Quase viajei com uma prótese provisória, mas o dentista verificou melhor a situação e constatou não ser necessária uma cirurgia. Assim, colocou apenas uma nova restauração. Entretanto, uns meses antes o tal molar inferior esquerdo que aparece no sonho me causou um grande trauma. Estava comendo uma bala Butter Toffees e o bloco simplesmente soltou. Com o movimento de mastigação eu mastiguei a prótese com o restante do dente, que quase se quebrou. Até hoje morro de medo de isso voltar a acontecer. Preciso voltar ao dentista...

A última viagem tem um explicação mais lúdica. Caco Gonçalves, Lauriene Alvim e Daniel Fernandes Coelho são pessoas que, nos respectivos momentos, estiveram de alguma forma mais presentes na minha vida, com participações que tiveram seus significados. Em comum com cada um deles há aquele velho distanciamento que deixamos surgir e crescer quando a vida torna-se complicada com seus percalços, meandros e compromissos que firmamos no dia-a-dia. É aquela tal situação em que vemos a pessoa à distância ou pensamos nela e falamos para nós mesmos “poxa, vou lá dar uma palavrinha com ela” e deixamos o momento oportuno passar, seguidas vezes, até que chega-se ao distanciamento que nos torna colegas ou conhecidos e nem sempre tem volta. Quantas vezes já não cometemos esse crime, que ainda acontecerá outras tantas vezes com essas e outras pessoas?

Não consegui mais dormir depois que acordei para fazer essa crônica justamente por conta desta reflexão. Achei que seria uma forma interessante de dizer a essas pessoas, assim como a tantas outras que me vêem por aí e não dizemos nada umas às outras, que nunca é tarde. O tempo não apaga experiências que nos promovem boas memórias ou lembranças de uma vivência ou acontecimento bom. Não sei se esse texto seria suficiente para promover essa reflexão.

Talvez isso devesse virar música. Vai saber...

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